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Quem foi que disse que ser Real não é ser feliz?

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Não sou daqui

"Quero me encontrar, mas não sei onde estou
 Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
 Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
 Tenho quase certeza que eu não sou daqui!"

(Meninos e meninas, Dado Villa-Lobos / Marcelo Bonfá / Renato Russo)


Há muito tempo não escrevo aqui no blog. O foco nas externas e a minha falta de tempo fizeram com que a atividade por aqui ficasse parada por longo tempo, embora a página no Facebook e, mais recentemente, o perfil no Instagram tenham bastante movimento.
Devo confessar que me encontro, já há algum tempo, numa desilusão profunda em relação à vida no Rio de Janeiro. Viver aqui não tem feito bem à saúde física, mental e emocional de ninguém, e eu não fui excluída dessa conta. Mas, como ainda não consegui nenhum meio de me sustentar fora daqui para ir embora, por enquanto, é aqui que eu preciso estar e tentar, dentro das minhas possibilidades, viver melhor.


Há poucos dias, li uma entrevista brilhante da arquiteta Tainá de Paula falando sobre o direito à cidade pela população periférica (link abaixo) e refleti bastante sobre suas falas. Apesar de concordar com tudo o que ela disse, não pude deixar de observar que nunca me deixei afetar pelas restrições que a cidade impõe a seus habitantes, e tudo isso por uma razão: não sou daqui.
Para quem não me conhece, me apresento: eu, Emília Nazaré, nasci, sim, na cidade do Rio de Janeiro, em agosto de 1987, no hospital Fabiano de Cristo (atual Vital), no Engenho Novo.  Em outubro do mesmo ano, aos meus 2 meses de vida, meus pais se mudaram para o Espírito Santo. Na cidade de Marataízes, morei até o início de 1991. Foi lá que eu aprendi a andar, falar, tive minha primeira escola, primeiros coleguinhas, primeiro contato com o mar (a cidade é litorânea), primeiras situações constrangedoras para minha mãe... enfim, as minhas mais distantes memórias são dessa cidade, que à época era apenas um distrito do município do Itapemirim, tendo conquistado sua emancipação política em 1994 e feito suas primeiras eleições para a prefeitura em 1996.
Em 1991, após a separação dos meus pais, minha mãe se mudou comigo para Cachoeiro de Itapemirim, também no Espírito Santo. Essa é a cidade que eu considero como meu local de origem. Em Cachoeiro eu aprendi a ler, foi lá que descobri meus talentos e também minhas limitações, encontrei pessoas que marcaram minha vida para sempre, muitas das quais ainda estão presentes nela.
Em 1999, depois que minha mãe se mudou para a zona rural de Atílio Vivácqua, município vizinho a Cachoeiro, eu saí de casa e vim morar com familiares paternos no Rio, onde tive mais recursos para estudar. Aqui, morando na Zona Oeste, concluí o ensino fundamental e médio, fiz faculdade no Centro e na Urca, comecei a trabalhar, fiz pós-graduações, estudei línguas, fiz muitas amizades, vivi grandes relacionamentos, mas meu coração sempre esteve ligado à minha terra, para onde sempre fui em todas férias e, eventualmente, feriados longos.
Na minha terra, as pessoas não se preocupam com distâncias quando têm propósitos a realizar. Atravessam cidades e até divisas entre estados, quando necessário, para cumprir aquilo a que se propuseram. Tratam como objetivo, não como sacrifício. E foi com essa mentalidade que eu cresci no Rio. Desde a faculdade, sempre estudei e trabalhei longe de casa, e nunca interpretei essa ação como sacrifício, mas sim como o que eu precisava e ainda preciso fazer.
Hoje, pelas minhas atuais atividades e arranjos de vida, me divido entre as zonas Norte, Sul e Oeste da cidade. Em todas elas, o tratamento é o mesmo. A cidade segrega? Ao extremo! Eu me importo? Nem um pouco! Coloco minha mochila nas costas e vou! Uso mais de um transporte, faço baldeação, caminho trechos a pé, mas vou! E vou para as cidades vizinhas também, visito amigos, faço compras, faço pesquisas, só não fico sentada na calçada chorando porque a cidade me exclui (e sim, ela exclui!).
Foi nesse espírito que eu aprendi a explorar a região sem preconceitos. Todos os bairros, sejam ricos ou pobres, têm atrativos, e é em busca deles que eu ando. Não precisa ser ponto turístico, não! Se o atrativo for uma iguaria da baixa gastronomia local, já vale a visita! As cidades da região metropolitana são interessantes, sim! Já ouvi cada comentário absurdo, carregado de preconceito, a respeito de locais que as pessoas nem conhecem, que se eu fosse escrever sobre casa um deles renderia um novo post!
Por isso, digo a quem é dessa cidade, quem tem raízes aqui, quem se identifica como carioca, de qualquer região: deixe os preconceitos de lado e se aproprie da sua cidade! Eu fiz isso, mas eu não sou daqui. Meu olhar é diferente porque foi formado em outro estado, com outra dinâmica, e essa é uma coisa que eu posso agregar às visões de vocês.
Compartilhem suas dúvidas e até suas ideias pré-fabricadas. Quem sabe sai uma nova construção?

Entrevista da Arquiteta Tainá de Paula à Agência de Notícias das Favelas: http://www.anf.org.br/forca-raca-e-coragem-taina-de-paula/?fbclid=IwAR2Kp4TS57g3r5td0HZaXNIislMrdljSl657RN132-SeVMmAlAu7GxxJqBU

Um comentário:

  1. Gostei do termo ideias pre-fabricadas, quase um eufemismo para preconceito. Eu nao teria grandes problemas em ir se eu pudesse ler livros no trajeto, mas eu tenho grandes dificuldades de me concentrar em leitura se nao estou num local isolado. Tenho um grande problema tb quando estah aquele calor no RJ e estamos numa lotacao nao climatizada. Daquela vez em que fomos realizar a materia para RnR na Ilha do Governador, no percurso, dentro do 397, estava tao quente, mas tao quente, q lembro ateh hj, rs.

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